Desvendando as tramas da vida: Biógrafos revelam os desafios éticos de transformar trajetórias reais em narrativas que cativam

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Desvendando as tramas da vida: Biógrafos revelam os desafios éticos de transformar trajetórias reais em narrativas que cativam

Livros empilhados e materiais de escrita em uma mesa, simbolizando o processo de biografia

Três dos mais proeminentes biógrafos brasileiros, Bianca Santana, João Pombo Barile e Adriana Negreiros, detalharam as complexidades e desafios inerentes à produção de obras que narram a vida de personalidades. As reflexões foram compartilhadas em entrevista ao Nexo Jornal, em antecipação à quinta edição d’A Feira do Livro, festival literário em São Paulo, agendado entre 30 de maio e 7 de junho. Durante o evento, eles irão explorar as dificuldades enfrentadas no gênero, suas trajetórias pessoais na escrita biográfica e como suas próprias vivências se entrelaçam com as histórias que contam.

A autora de “Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro” (2021), Bianca Santana, revela que sua obra sobre a intelectual pública brasileira não nasceu como uma biografia, mas evoluiu para tal à medida que o processo de entrevistas e pesquisa se aprofundava. Ela precisou estabelecer um recorte temporal, optando por 2012 como marco final, ano do julgamento da constitucionalidade das cotas raciais pelo Supremo Tribunal Federal (STF), evento que simbolizava uma grande vitória coletiva pela qual Sueli Carneiro lutou.

A biografia tem a intenção de narrar a verdade, mas a vida de uma pessoa não é só objetiva. O meu olhar está marcado nesse livro. Uma biografia é a vida de uma pessoa a partir do olhar de outra feita em determinado momento, por isso tem assinatura e data.

Santana também enfrentou dilemas éticos, suprimindo capítulos que considerou difíceis e potencialmente constrangedores para a biografada, ponderando o impacto da informação na esfera pública versus o constrangimento pessoal. A biógrafa sublinha o rigor jornalístico exigido para a apuração e checagem, sem abrir mão de uma narrativa envolvente. Para ela, o projeto foi uma imersão completa, assumindo seu corpo por três anos.

Para João Pombo Barile, que lançará “Presente do acaso – um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago” em 2025, sua primeira incursão no gênero biográfico exigiu um aprofundado conhecimento da obra do biografado. Inicialmente, Barile pretendia manter uma distância narrativa mínima, mas a insistência do próprio Silviano Santiago em ter a presença do biógrafo no livro definiu o tom da obra, revelando um embate marcante entre os dois. A preocupação principal era criar um texto fluido e cativante, que não se tornasse maçante para o leitor.

O autor buscou homenagear Silviano Santiago em seus 90 anos, em 2026, com uma linguagem que dialogue com as novas gerações, focando em aspectos menos explorados de sua vida, além da carreira acadêmica. Barile priorizou a representação de Belo Horizonte, cidade frequentemente secundarizada na cultura brasileira, como palco de acontecimentos significativos nos anos 1950 na vida da geração de Santiago. Apesar da pesquisa exaustiva, ele reconhece a tênue fronteira entre ficção e reportagem na vida real.

Adriana Negreiros, responsável pelas biografias “Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço” (2018) e “Dercy: A diva debochada” (2026), adota um método semelhante ao jornalismo investigativo, começando com leitura extensiva, pesquisa em imprensa e entrevistas, para então escrever cronologicamente. Ela enfatiza a importância de checar as informações rigorosamente e evitar a mitologia que frequentemente cerca figuras públicas.

Negreiros argumenta que biografias nunca são definitivas, pois refletem o escritor e seu momento de vida. Sua perspectiva feminina, por exemplo, trouxe à tona dramas de mulheres no cangaço, como a violência sexual e a necessidade de doar bebês, aspectos muitas vezes negligenciados em narrativas masculinas. A biógrafa admite que o processo biográfico estabelece uma relação “quase promíscua” entre biógrafo e biografado, que contraria o princípio ético jornalístico da distância, resultando em um envolvimento afetivo profundo.

Se pudesse, faria só isso: mergulhar e viver uma vida completamente diferente da minha.

A imersão na vida de suas personagens, como a escuta constante da voz de Dercy Gonçalves, é descrita como fascinante e exaustiva, mas plenamente recompensadora para Negreiros.

Tags :
aulas de escrita,biografia,ética jornalística,Feira do Livro,jornalismo,literatura,processo criativo

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