No ano de 2026, uma pergunta paira no ar, cada vez mais presente em nossas vidas digitais: os algoritmos estão, de fato, decidindo o que consumimos em termos de conteúdo? A resposta, embora possa parecer complexa, reside em uma realidade cada vez mais palpável. A inteligência artificial e os sistemas algorítmicos deixaram de ser meros facilitadores de recomendação para se tornarem arquitetos de nossas experiências informacionais e de entretenimento. Eles não apenas sugerem, mas moldam ativamente nossas escolhas, nosso consumo e, de forma sutil, até mesmo nossas memórias.
Essa influência crescente se manifesta de maneiras que muitas vezes passam despercebidas. A busca por reter a atenção do usuário em um mar de informações leva os algoritmos a priorizar conteúdos que sejam mais imediatos, facilmente reconhecíveis e digeríveis em poucos segundos. Isso resulta em ciclos de repetição de temas e formatos, onde variações de um mesmo “meme” ou ideia podem dominar os feeds. Embora a viralidade seja frequentemente celebrada como um indicador de sucesso, ela raramente se alinha com a relevância cultural duradoura ou a profundidade que provoca reflexão.
A ascensão dos algoritmos na formação de conteúdo
A inteligência artificial, antes vista como uma ferramenta de apoio em processos como a criação de efeitos especiais, agora está intrinsecamente ligada ao conteúdo que consumimos. Essa aplicação vai muito além da geração de imagens ou cenas; ela se insere na própria curadoria e, em última instância, na determinação do que chega até nós. A IA já está atuando de forma decisiva no que assistimos, mesmo quando o conteúdo é originariamente real.
O preço dessa curadoria algorítmica começa a se tornar evidente. Narrativas que se adequam bem a ambientes controlados por algoritmos tendem a ser mais diretas, previsíveis e fáceis de serem compreendidas rapidamente. Ganchos fortes, temas familiares e estruturas já testadas ganham preferência. Isso explica a proliferação de conteúdos que seguem padrões estabelecidos, muitas vezes repetindo formatos que provaram ter potencial de engajamento.
Nada disso é, por si só, um problema intrínseco. A questão se torna mais complexa quando esse modelo algorítmico começa a ditar as regras de criação de conteúdo. Projetos mais ambiciosos, complexos, ambíguos ou com nichos culturais específicos podem acabar relegados a zonas cinzentas, com pouca ou nenhuma visibilidade, simplesmente por não se alinharem perfeitamente com os critérios de otimização para algoritmos.
Viralidade versus relevância: a batalha pela atenção
A linha entre o que “viraliza” e o que genuinamente merece ser visto torna-se cada vez mais tênue. A viralidade, impulsionada pela capacidade algorítmica de identificar e propagar conteúdos que retêm a atenção, tornou-se uma métrica de sucesso predominante. No entanto, essa métrica frequentemente não se traduz em relevância cultural duradoura ou em um impacto que provoque reflexão, desconforto ou transformação no espectador.
Quando plataformas digitais começam a equiparar viralidade com relevância, o entretenimento corre o risco de se tornar um mero reflexo de padrões já existentes. A capacidade de surpresa e a introdução de novas perspectivas podem ser suprimidas, levando a um ciclo de consumo que, apesar de volumoso, deixa pouca marca duradoura.
Essa dinâmica explica um fenômeno paradoxal: vivemos em uma era de produção e consumo audiovisual sem precedentes, mas, ao mesmo tempo, o conteúdo que permanece em nossa mente por muito tempo parece cada vez mais escasso. A troca de momentos descartáveis por memórias significativas é uma consequência direta dessa curadoria algorítmica que prioriza o engajamento imediato.
O tec-existencialismo e a entrega do poder de decisão
A profunda integração da tecnologia em nossas vidas trouxe à tona o conceito de “tec-existencialismo”, um termo que descreve a realidade construída pela fusão entre a agência humana e a influência algorítmica. Segundo Roger Spitz, analista de riscos e CEO do Disruptive Futures Institute, essa fusão redefine a forma como tomamos decisões. Onde antes a decisão era um território estritamente humano, agora a inteligência artificial atua como um componente ativo nesse processo.
Esta não é apenas uma teoria acadêmica; é uma lente essencial para entender como nossas escolhas, percepções e até mesmo nossa liberdade de escolha estão intrinsecamente ligadas ao avanço tecnológico. As discussões sobre IA frequentemente caem em dicotomias entre utopia e distopia, mas o ponto mais sutil e potencialmente perigoso é a capacidade da tecnologia de afetar nossa liberdade de escolha e nossa agência como indivíduos, como destaca Claudia Elisa Soares em seu artigo na Exame, “Estamos entregando nosso poder de decisão aos algoritmos — e nem percebemos“.
A questão fundamental que surge é: até que ponto permitiremos que os algoritmos ascendam na hierarquia de nossas tomadas de decisão? No âmbito empresarial, essa pergunta é ainda mais crítica. Quantas decisões estratégicas estamos dispostos a delegar a máquinas? Onde traçamos a linha entre a eficiência proporcionada pela tecnologia e a sabedoria humana, a intuição e o julgamento que emanam da experiência e da complexidade da vida?
Ao delegarmos decisões cruciais a algoritmos, corremos o risco de atrofiar nossa própria capacidade de discernir, de dar significado e de decidir por nós mesmos. Essa delegação, quando feita sem critério, pode nos tornar mais automatizados e menos pensantes, como um chamado urgente para quebrar paradigmas e reavaliar nossa relação com a tecnologia.
Domínios complicados versus domínios complexos na tomada de decisão
A inteligência artificial demonstra sua força em “domínios complicados”, onde as variáveis são conhecidas e as respostas previsíveis. Nesses cenários, a IA brilha ao otimizar processos, identificar padrões em grandes volumes de dados e oferecer soluções eficientes para problemas lineares. Exemplos incluem a otimização logística, a personalização de serviços e a análise preditiva em mercados financeiros. Nesses contextos, a tecnologia é uma aliada inestimável para a expansão e a excelência operacional.
Contudo, existe outra categoria de desafios: os “domínios complexos”. Estes são caracterizados por grandes incógnitas, natureza não linear e, consequentemente, imprevisibilidade. Nesses cenários, não há um conjunto único de respostas “corretas” pré-determinadas. A IA, por mais sofisticada que seja, não possui uma superioridade inerente aos humanos para navegar por essa névoa de incertezas.
A verdadeira preocupação surge quando delegamos decisões em domínios complexos e imprevisíveis exclusivamente às máquinas. A sabedoria humana, a capacidade de lidar com o ambíguo e o não linear, e a intuição derivada da experiência de vida, são insubstituíveis nesses contextos. Abandonar essa capacidade em favor da automatização algorítmica pode levar a consequências imprevisíveis e potencialmente negativas.
Navegando a encruzilhada tec-existencial: o caminho a seguir
Diante desse cenário, a solução não reside na rejeição da inteligência artificial, mas sim na sua compreensão e integração consciente. A regulamentação é, sem dúvida, um passo necessário para estabelecer salvaguardas éticas e limites claros. No entanto, a regulamentação por si só não é suficiente. Ela deve ser acompanhada por uma reinvenção mais profunda da sociedade, da educação e de nossa própria mentalidade.
É crucial cultivar uma conexão mais profunda conosco mesmos, com nossos valores e com o propósito que nos move. Precisamos desenvolver uma consciência aguçada sobre a dinâmica entre humanos e algoritmos, expandindo nossas habilidades para além daquilo que a máquina pode replicar. Isso inclui o aprimoramento da gestão das emoções, da comunicação eficaz — especialmente o storytelling humano e impactante —, da solução de conflitos e, acima de tudo, do pensamento crítico.
A tecnologia, em sua capacidade de amplificar narrativas em escala global, desde a desinformação até disputas tecnológicas, aumenta nossa responsabilidade individual e coletiva. O tec-existencialismo nos convoca a buscar uma leitura mais assertiva dos acontecimentos, a sair da estagnação, a ressignificar nossas carreiras e a compreender melhor nossos próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos.
Nossa força intrínseca reside na capacidade de superação, no entusiasmo e na assertividade, que podem transformar qualquer ambiente. A inteligência artificial é uma força imparável, mas a capacidade humana de discernir, de inovar a partir da inspiração, de sentir empatia e de exercer a liberdade de escolha permanece como nossa maior virtude. O futuro não é um destino predeterminado; ele é moldado ativamente pelas nossas escolhas e pela nossa contínua busca por aquilo que nos torna intrinsecamente humanos.



