A romantização da escrita está enganando novos autores?

Criatividade

A romantização da escrita está enganando novos autores?

Mesa de escritor com máquina de escrever antiga, simbolizando a romantização e a realidade da escrita.

A ideia de se tornar um escritor, com suas noites de inspiração, a máquina de escrever antiga e a promessa de um mundo criado por sua imaginação, é um cenário que seduz muitos aspirantes. No entanto, essa imagem, frequentemente idealizada, pode estar distorcendo a realidade da profissão e criando expectativas irreais em novos autores. A pergunta que paira no ar é: essa romantização da escrita está, na verdade, enganando quem está começando?

Muitos iniciantes entram nesse universo atraídos pela autonomia, pela liberdade criativa e pela possibilidade de viver de sua arte. A facilidade com que se encontram histórias inspiradoras sobre autores que alcançaram o sucesso, muitas vezes sem detalhes sobre os percalços, contribui para essa visão distorcida. É crucial desmistificar a jornada literária, apresentando-a de forma mais realista para que os novos talentos possam trilhar um caminho mais sólido e menos frustrante.

O encanto da idealização vs. a dura realidade

O imaginário popular frequentemente retrata o escritor como um gênio solitário, imerso em reflexões profundas, capaz de produzir obras-primas em um fluxo contínuo de criatividade. Essa visão, alimentada por filmes, livros e até mesmo pela própria cultura literária, raramente aborda os aspectos menos glamorosos da escrita: a disciplina rigorosa, as intermináveis revisões, a autocrítica implacável, a necessidade de autopromoção e a instabilidade financeira, especialmente nos estágios iniciais.

A verdade é que a escrita é, antes de tudo, um trabalho árduo. Exige dedicação, estudo constante e uma resiliência inabalável. A inspiração, embora importante, é apenas uma faísca; a maior parte da obra é construída com suor e persistência. Como aponta Gabi, em seu artigo “A desromantização da escrita”, a imagem do autor genial que escreve sem esforço é um mito que pode paralisar novos escritores, pois eles esperam a musa chegar em vez de sentar e trabalhar.

A literatura moderna, por outro lado, muitas vezes se afasta do romantismo em favor de uma representação mais crua da realidade. Murray N. Rothbard, em seu ensaio “Romantismo e Ficção Moderna*”, critica a tendência de autores modernos que rejeitam o romantismo, considerando-o simplista. Ele observa que, enquanto os naturalistas buscam apresentar a vida “como ela realmente é”, muitas vezes focando no grotesco e no depravado, os não objetivistas criam uma linguagem obscura e códigos que dificultam a comunicação. Rothbard argumenta que toda arte é, em essência, comunicação e que a clareza de estilo é fundamental. Ele também defende a ideia de que o artista, ao selecionar aspectos da realidade para apresentar, o faz de acordo com seus valores, transformando a arte em uma objetificação desses valores.

A influência do “artista romântico”

Rothbard, em sua análise, contrasta essa abordagem com a do autor romântico, que, segundo ele, “percebe que está apresentando o mundo tal como deveria ser e, ao fazê-lo, mostra que existem valores e ideais que o homem pode se esforçar para alcançar”. Ele argumenta que os romancistas, conscientes ou não, são filósofos morais e professores. A escolha artística é determinada pelos valores do selecionador, e essa seleção é transmitida ao leitor.

Essa perspectiva, embora focada em uma crítica literária, revela como a própria natureza da arte e da ficção pode moldar a percepção dos autores e do público. Se a arte é a objetificação de valores e ideais, então a forma como esses valores são apresentados, e a clareza com que são transmitidos, são cruciais. A romantização da escrita, nesse contexto, pode estar promovendo uma visão de arte focada apenas na expressão de ideais, sem a devida atenção à estrutura, ao trabalho e à comunicação eficaz.

O perigo de expectativas irrealistas

Quando novos autores se deparam com a realidade do mercado editorial e da produção literária, a discrepância entre a fantasia e o fato pode levar à desmotivação e ao abandono. A crença de que o sucesso virá apenas pela força da inspiração ou pela genialidade intrínseca pode ofuscar a necessidade de:

  • Desenvolvimento de habilidades: A escrita é uma arte que se aprimora com a prática e o estudo. Aprender sobre estrutura narrativa, desenvolvimento de personagens, diálogos, e técnicas de escrita é fundamental.
  • Networking e marketing: Viver da escrita também envolve saber se conectar com outros profissionais, construir uma audiência e promover o próprio trabalho.
  • Resiliência a críticas e rejeições: O caminho da publicação é frequentemente pavimentado com negativas e críticas construtivas (e às vezes nem tão construtivas).
  • Gestão financeira: Muitos escritores precisam conciliar a escrita com outras atividades para garantir sua subsistência, especialmente no início.

A ideia de que o talento puro é suficiente ignora o esforço, a dedicação e a estratégia necessários para construir uma carreira literária sustentável. Essa idealização pode levar à frustração quando os resultados não aparecem magicamente.

Desromantizando para construir carreiras sólidas

Para combater essa tendência de romantizada, é essencial adotar uma abordagem mais pragmática e realista. Isso não significa tirar a magia da escrita, mas sim contextualizá-la dentro de um quadro de trabalho e profissionalismo.

Educação e Mentoria

Novos autores se beneficiariam enormemente de acesso a informações claras sobre o mercado editorial, os desafios da publicação e as estratégias de carreira. Cursos, workshops, mentorias com autores experientes e a leitura de materiais que discutam abertamente os bastidores da vida literária podem oferecer uma visão mais equilibrada.

O artigo “A desromantização da escrita” reforça a importância de entender que a escrita é um ofício. A autoria é construída, não apenas um dom inato. A paixão é o combustível, mas a disciplina e a estratégia são o mapa e o veículo.

Foco no Processo, não apenas no Resultado

Enquanto a admiração pelo sucesso final é natural, é o processo de escrita em si que deve ser valorizado e compreendido. Celebrar pequenas vitórias, como a conclusão de um capítulo, a superação de um bloqueio criativo ou o recebimento de um feedback positivo, ajuda a manter a motivação sem depender apenas da validação externa ou do reconhecimento futuro.

Comunicação Clara e Valores Transmitidos

Voltando à análise de Rothbard sobre a arte como comunicação e objetificação de valores, percebe-se a importância de os autores modernos não apenas expressarem seus ideais, mas também o fazerem de forma clara e acessível. A complexidade e a obscuridade, embora possam ter seu lugar, não devem ser usadas como um substituto para a profundidade ou a originalidade. Um autor que deseja transmitir uma mensagem ou uma visão de mundo deve se preocupar com a eficácia dessa transmissão, garantindo que o leitor consiga compreender e se conectar com a obra.

A escrita, como qualquer outra profissão criativa, tem seus altos e baixos. A romantização excessiva pode levar a expectativas infladas e, consequentemente, a decepções amargas. Ao invés de alimentar o mito do gênio incompreendido, é mais produtivo cultivar uma imagem do escritor como um artesão dedicado, um comunicador habilidoso e um empreendedor de seu próprio talento.

Conclusão: abraçando a realidade com paixão

A paixão pela palavra e a capacidade de criar mundos são, sem dúvida, os pilares da vocação literária. No entanto, para que novos autores floresçam e construam carreiras duradouras, é fundamental despir a escrita das camadas de idealização que a cercam. Acreditamos que a desromantização não é um convite ao cinismo, mas sim um chamado à clareza e ao profissionalismo.

Ao entender a escrita como um ofício que exige estudo, disciplina, resiliência e estratégia, os aspirantes a autores podem se preparar de forma mais eficaz para os desafios e recompensas que a jornada oferece. Abraçar a realidade, sem perder a centelha que os impulsionou a começar, é o caminho mais seguro para transformar o sonho da escrita em uma profissão gratificante e sustentável no cenário literário de 2026 e além.

Quer receber uma leitura crítica da sua obra? Nos envie um e-mail para escola@tellers.com.br e peça um orçamento para começar agora a realizar o seu sonho de publicação. 

Tags :
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