Meu Odiado Crítico investiga a influência e a colaboração criativa da crítica musical brasileira

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Meu Odiado Crítico investiga a influência e a colaboração criativa da crítica musical brasileira

Meu Odiado Crítico - miguel de almeida

Um novo livro organizado por Miguel de Almeida busca reabilitar a imagem do crítico musical no Brasil, desconstruindo a noção de que estes profissionais apenas se alimentam do trabalho alheio. A obra, intitulada “Meu Odiado Crítico“, reúne perfis e textos selecionados de quatro figuras que moldaram a forma de pensar a música no país a partir da década de 1960: Ezequiel Neves, Júlio Medaglia, Sérgio Cabral e Zuza Homem de Mello. A publicação, lançada em 2026, visa demonstrar a capacidade de colaboração criativa da crítica, atuando como um instrumento de auxílio à produção artística.

Almeida defende que a qualidade da crítica musical brasileira já esteve em sintonia com a excelência da própria música nacional, que ganhou projeção internacional. Segundo o organizador, houve um tempo em que a crítica estabeleceu uma interlocução à altura, um diálogo fecundo entre criadores e pensadores, músicos e críticos. “Eu sempre acreditei que, assim como a música brasileira tem uma extrema qualidade, que a colocou em circulação no mundo inteiro, em determinado momento ela encontrou na crítica uma interlocução à altura, um diálogo entre criadores e pensadores, músicos e críticos”, afirma Almeida.

A intenção por trás do livro, que inclusive abre espaço para um segundo volume, é desmistificar a visão do crítico como um mero parasita da criação alheia. “A ideia do livro […] é desmistificar essa história de que o crítico é um vampiro, que só usufrui da criação alheia”, explica o autor. Ele pontua que a crítica, na sua concepção, possui uma capacidade de colaboração criativa e pode servir como um instrumento de auxílio à produção. A obra compila 63 críticas publicadas entre 1957 e 2020, apresentando a variedade de gêneros abordados e a profundidade das questões levantadas.

Os quatro críticos perfilados, embora contemporâneos em parte de suas carreiras, possuíam focos de atuação distintos. Ezequiel Neves (1935-2010) foi um jornalista, produtor e figura central do rock nacional em seus primórdios, sendo creditado por apresentar Cazuza ao Barão Vermelho. Júlio Medaglia (nascido em 1938) destaca-se como maestro, arranjador e pensador, conhecido por sua erudição e abertura ao experimental, atuando como um braço intelectual da Tropicália e promovendo a fusão entre o popular e o erudito.

Sérgio Cabral (1937-2024) é reconhecido como um dos maiores historiadores do samba, responsável por popularizar nomes como Noel Rosa e Cartola e por descobrir Martinho da Vila. Seu trabalho, com forte carga social, buscou apresentar a diversidade do samba a públicos menos familiarizados. Zuza Homem de Melo (1933-2020), por sua vez, é descrito como o mais professoral do grupo, dedicado à análise das relações entre gêneros musicais e autor de extensa bibliografia, além de ter dirigido festivais marcantes como o Festival da Record.

Almeida também associa o trabalho desses críticos ao movimento do “new journalism” surgido nos Estados Unidos nos anos 1960, que mescla técnicas literárias com reportagem factual. Ele ressalta a participação ativa de alguns desses críticos nos acontecimentos que cobriam, aproximando a ação crítica de uma intervenção direta na produção musical. “O caso do Cabral é exemplar. Ele organizou espetáculos, foi produtor, e depois se meteu a compositor, com bastante êxito”, exemplifica Almeida.

Em contrapartida, Almeida lamenta o estado atual da produção musical e crítica. Ele observa que a produção musical contemporânea não estimula a reflexão e o desafio, contrastando com a efervescência crítica do passado. “A produção musical oferecida hoje não estimula a reflexão, não desafia”, conclui.

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