A pergunta ecoa nos corredores das livrarias, nas redações de jornais e nas mentes de autores e editores há anos: o mercado editorial, tal como o conhecemos, está à beira do fim? Com a ascensão meteórica do digital, a velocidade da informação e a mudança nos hábitos de consumo, é natural que surjam essas inquietações. No entanto, a resposta não é um simples sim ou não. O que observamos é um cenário complexo de declínio em formatos tradicionais, mas também um vibrante processo de reinvenção e adaptação. O impresso não está desaparecendo; ele está encontrando novas formas de coexistir e prosperar em um mundo cada vez mais conectado.
Se olharmos para os dados, a imagem pode parecer sombria à primeira vista. Uma pesquisa realizada pela Nielsen BookData, divulgada em 2025, aponta para uma queda real de 44% no faturamento do mercado de livros impressos entre 2006 e 2024, quando descontada a inflação. Essa realidade é reforçada por outros estudos, como o coordenado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), que indicam um recuo contínuo nas vendas de impressos ao mercado. Em quase duas décadas, o setor encolheu 44% em termos reais.
Porém, uma análise mais aprofundada revela nuances importantes. Essa mesma pesquisa da Nielsen BookData, citada por PublishNews, também sinaliza um crescimento em nichos específicos, como Obras Gerais (9,2%) e Religiosos (8,7%), impulsionados, em parte, pelo conteúdo digital. Isso sugere que, embora o formato tradicional esteja encolhendo em geral, ele encontra focos de resistência e adaptação. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o SNEL também destacam que a venda de livros ao mercado representa menos de 40% do faturamento das editoras de Didáticos, um reflexo da transformação digital nesse segmento.
O que os números realmente dizem?
A queda geral no faturamento do setor de livros impressos, apontada pela Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, é um fato inegável. Dante Cid, presidente do SNEL, expressa preocupação com essa tendência, especialmente em um país que necessita urgentemente aumentar seus índices de leitura para combater desigualdades sociais através da educação. A redução no volume de vendas, em particular no subsetor de Didáticos, que caiu 51% nas vendas ao mercado desde 2006, é um dos principais fatores que contribuem para o desempenho negativo geral.
Mariana Bueno, coordenadora de pesquisas da Nielsen Book Data, contextualiza que a última década foi marcada por transformações significativas, com impactos variados entre os subsetores. Enquanto Didáticos e CTP (Científico, Técnico e Profissional) passaram por grandes mudanças, com estratégias digitais se mostrando mais eficazes, os segmentos de Religiosos e Obras Gerais apresentaram resiliência. Obras Gerais, em particular, tem conseguido bons resultados graças à recuperação de preços, mesmo com a queda no número de exemplares vendidos. O subsetor de Religiosos, apesar de uma retração expressiva, tem o melhor desempenho comparativo entre os subsetores, com uma queda menor ao longo dos anos.
É importante notar que o preço médio real do subsetor de Obras Gerais, embora tenha se aproximado dos níveis de 2010, ainda permanece 27% abaixo do valor registrado em 2006. Esse reajuste de preços tem sido uma estratégia para compensar as perdas acumuladas. Já o CTP, embora tenha apresentado uma queda real de 2% em 2024, teve o melhor desempenho anual da década, mesmo com uma retração acumulada de 61% desde 2006.
A ascensão do mercado digital
Paralelamente à retração do impresso, o mercado digital do setor editorial tem mostrado um crescimento robusto. A Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro revela que a categoria À La Carte, que engloba a venda de e-books e audiobooks unitários, apresentou um crescimento de 200% no faturamento nos últimos seis anos. As “Outras Categorias”, que incluem Bibliotecas Virtuais, Assinaturas, Cursos Online e Plataformas Educacionais, cresceram 30% em 2024 em relação ao ano anterior, com destaque para Bibliotecas Virtuais, que apresentaram um impressionante crescimento de 378% nos últimos seis anos.
Esse desempenho do conteúdo digital foi fundamental para impulsionar o crescimento real de todo o setor em 2024, descontando a inflação. Atualmente, o mercado digital representa 9% do mercado editorial total, um número que tende a crescer e a se consolidar como uma parte essencial da indústria.
O impresso em reinvenção: além da mídia tradicional
Diante desse cenário de transformações, o impresso não está simplesmente morrendo, mas passando por um profundo processo de reinvenção. Fábio Carvalho, CRO da Printi, destaca que, em um mundo dominado pela tecnologia e pelo excesso de informação, as pessoas buscam cada vez mais se reconectar com o mundo físico, longe das telas. A experiência tátil de um livro, a textura do papel e a ausência de notificações constantes proporcionam um refúgio para momentos de imersão e concentração.
Nesse contexto, jornais e revistas impressos estão focando em conteúdo de maior profundidade, como reportagens, artigos de opinião e análises, em vez de notícias de última hora. A ideia é oferecer contexto e confiabilidade, algo que o fluxo incessante da internet nem sempre consegue proporcionar. Essa mudança atende a uma necessidade crescente de conteúdo mais qualificado e menos superficial, especialmente quando consideramos os estudos sobre o chamado “Brain Rot” ou “Cérebro de Pipoca”, que apontam os prejuízos à atenção e concentração causados pelo consumo excessivo de informações rápidas e fragmentadas.
O livro físico, em particular, mantém seu apelo sensorial e emocional. O cheiro do papel, o ato de folhear, a capa que convida ao toque – todos esses elementos criam uma experiência de leitura única que o digital, apesar de sua praticidade, ainda não consegue replicar completamente. A indústria editorial tem explorado isso investindo em nichos de mercado promissores, como ficção young adult e livros de colorir, que apresentaram forte crescimento nas vendas em 2025. Além disso, edições de colecionador transformam livros em verdadeiros objetos de desejo, agregando valor e apelo estético.
A convergência como modelo futuro
A verdadeira revolução do impresso moderno não está em sua existência isolada, mas sim em sua integração a um ecossistema multimídia. A convergência entre o físico e o digital, muitas vezes descrita como modelo “figital”, é a chave para a sobrevivência e o crescimento. Jornais e revistas utilizam recursos como QR Codes e Realidade Aumentada (RA) para conectar suas páginas impressas a vídeos, podcasts, galerias de fotos online e outras experiências digitais interativas.
A impressão digital, com sua flexibilidade e capacidade de tiragens personalizadas sob demanda, também desempenha um papel crucial, reduzindo custos e desperdícios. Nesse modelo híbrido, o material físico atua como um ponto de partida, um complemento tangível ou um convite para uma jornada digital mais rica e envolvente. O digital direciona tráfego e interesse para o impresso, e vice-versa, criando uma relação simbiótica e mutuamente benéfica.
O futuro é híbrido: um novo papel para o impresso
Portanto, a resposta à pergunta inicial é clara: o mercado editorial não está morrendo, mas sim passando por uma transformação profunda e necessária. O impresso está abraçando um novo papel: o de objeto de valor intrínseco, de veículo para curadoria de conteúdo aprofundado e de âncora física em um universo digital cada vez mais volátil e efêmero. Sua sobrevivência e prosperidade dependem menos de competir em velocidade com o digital e mais de oferecer qualidade material, uma experiência de consumo intencional e uma integração inteligente com as plataformas digitais.
O futuro do mercado editorial reside na capacidade de adaptação, na exploração de nichos, na valorização da experiência tátil e sensorial, e, acima de tudo, na fusão harmoniosa entre o mundo físico e o digital. É um futuro onde o livro e a palavra escrita continuam a ter um lugar de destaque, reinventando-se para continuar a encantar e informar gerações. Pense nisso!



