Escritores deveriam parar de publicar?

Escrita

Escritores deveriam parar de publicar?

Escritor pensativo com livros e laptop, refletindo sobre o futuro da publicação.

A ideia de que um escritor só é verdadeiramente um escritor quando tem seu trabalho publicado oficialmente é um fantasma que assombra muitos criadores de conteúdo. Essa validação pelo mercado editorial, muitas vezes vista como um selo de qualidade e reconhecimento, levanta uma questão fundamental: ser escritor está intrinsecamente ligado ao ato de publicar, ou reside na própria essência da escrita?

Recentemente, o autor Bruno Leandro compartilhou sua jornada e reflexões sobre o tema em um artigo no Medium. Ele relata a sensação de incompletude até conseguir publicar seu primeiro livro, um conto via Amazon, após ter sido incluído em quatro coletâneas. Essa experiência o fez questionar a percepção comum de que um escritor não publicado ainda não atingiu seu pleno potencial. Como ele mesmo aponta, a publicação pode dar um gás, uma sensação de validação, mas será que isso define a identidade de um escritor?

A célebre frase de José Saramago, “Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não”, ecoa nesse debate. A interpretação de Leandro sugere uma capacidade inata para a escrita que todos possuímos. A vontade de exercê-la, e a concretização dessa vontade, são aspectos que transcendem a mera publicação. A verdadeira pergunta, talvez, seja: um escritor que não escreve é realmente um escritor?

A autocrítica: o dilema do escritor que não externa suas ideias

Quantas vezes nos deparamos com pessoas que anunciam “projetos” e “ideias incríveis”, mas que raramente saem do papel – ou da mente? Muitos possuem histórias maravilhosas, plot twists geniais e personagens inesquecíveis, mas tudo permanece confinado à imaginação. Como compartilhar essas narrativas se elas não ganham forma concreta? Mesmo que se opte por outros meios de expressão, como áudio ou vídeo, a externalização é crucial.

Uma história medíocre que encontra seu caminho para o mundo, seja através da escrita ou de outra forma de arte, tem mais valor do que uma obra-prima que jamais transcende os limites da imaginação. A publicação, nesse contexto, pode ser vista como um canal para dar vida a essas histórias, permitindo que elas alcancem um público e provoquem reações, reflexões ou simplesmente entretenimento.

A publicação: um meio, não um fim

Para muitos, a publicação é o objetivo final, o ápice da jornada criativa. No entanto, essa perspectiva pode ser limitante. A distinção entre escritor e não escritor, como defendido por Leandro, reside fundamentalmente no ato de escrever. A publicação, quando acontece, é uma consequência, um desejo do criador, e não o fator determinante de sua identidade literária.

Termos como “autor”, “profissional” ou “amador” são rótulos que pouco alteram o fato primordial de alguém ter criado algo com palavras, de ter produzido uma narrativa coesa e significativa. O profissionalismo, nesse cenário, torna-se irrelevante quando comparado à pura essência criativa e à vontade de compartilhar uma visão de mundo.

O gênero literário e a autopublicação: um olhar crítico

A discussão sobre autopublicação ganha contornos ainda mais interessantes quando analisamos o tipo de literatura que tem se destacado nesse formato. A escritora americana Edan Lepucki, em uma lista publicada no site “The Millions”, apresentou seis razões para não se autopublicar em 2011-2012. Entre os motivos, ela destacou a crença no papel insubstituível dos editores e a observação de que a onda das autopublicações não tem incluído muitos exemplos de “ficção literária”.

Lepucki diferencia a ficção literária, definida por sua ambição artística e preocupação com a forma, do que ela chama de “ficção de gênero”. Autores como Amanda Hocking, com sua fantasia juvenil, ou Valerie Forster, com thrillers jurídicos, encontraram sucesso na autopublicação. Histórias romanescas e sentimentais também se destacam nesse meio. No entanto, Lepucki argumenta que romances literários autopublicados que obtiveram aclamação crítica e boas vendas são raros. Ela sugere que esse caminho é particularmente árduo para autores de histórias com maior profundidade artística e que visam um público mais exigente.

Antes que me atirem pedras, convém esclarecer: não considero a ficção literária superior a outras formas de ficção, apenas diferente; para mim, é um outro gênero, tanto em termos de conteúdo quanto de marketing. Muitos dos escritores que tiveram sucesso na autopublicação são autores de uma ficção de gênero do tipo puro. Amanda Hocking escreve fantasia juvenil, com anões e tudo. Valerie Forster, que foi publicada pelas vias tradicionais antes de se estabelecer por si própria, escreve thrillers legais. Histórias romanescas e sentimentais também se saem bem sem uma editora por trás. No entanto, com exceção de ‘Anthopology of an American girl’, de Hilary Thayer Hamann, não consigo pensar em um romance literário autopublicado que tenha sido elogiado pela crítica e vendido bem. Não quero dizer que isso não possa – ou não deva – acontecer, apenas indicar que se trata de um caminho duro para autores de certos tipos de história. Leitores como eu não estão à procura de livros autopublicados. (…) A menos que Jeffrey Eugenides, Alice Munro e outros comecem a publicar seu trabalho via CreateSpace, não vejo a paisagem da ficção literária passando tão cedo por mudanças nesse aspecto.

Essa reflexão, originada no contexto americano, torna-se ainda mais pertinente no Brasil, onde a proporção de ficcionistas que se dedicam à literatura literária é significativamente maior. A questão se inverte: será que a predominância da literatura literária em nosso mercado significa que a autopublicação, se ganhar peso, seguirá a mesma lógica de nicho e dificuldade para obras mais complexas?

Os desafios da autopublicação para o autor

Embora a autopublicação ofereça uma liberdade sem precedentes para o autor, ela também o coloca diante de uma série de responsabilidades que tradicionalmente recaem sobre a editora. O autor se torna, em essência, uma pequena empresa, responsável por todas as etapas do processo:

  • Revisão e Edição: A qualidade do texto é paramount. Uma revisão e edição profissionais são essenciais para garantir a clareza, a coesão e a correção gramatical. Sem o crivo de um editor experiente, erros sutis podem comprometer a percepção de valor da obra.
  • Design de Capa: A capa é o primeiro contato do leitor com o livro. Uma capa profissional, que dialogue com o gênero e o público-alvo, é crucial para atrair a atenção em meio a tantas opções.
  • Formatação: A diagramação do livro, tanto para versão impressa quanto digital, precisa ser impecável. Uma formatação amadora pode tornar a leitura desagradável e prejudicar a imagem do autor.
  • Marketing e Divulgação: Talvez o maior desafio. Sem o apoio de uma equipe de marketing editorial, o autor precisa se tornar seu próprio divulgador, criando estratégias para alcançar leitores, gerenciar redes sociais, construir um site e, possivelmente, investir em publicidade.
  • Distribuição: Garantir que o livro esteja acessível em diferentes plataformas e formatos, seja online ou em livrarias físicas, exige conhecimento logístico e negociação.

Essas tarefas, quando realizadas por amadores, podem resultar em um produto final que não atende às expectativas do mercado, reforçando a ideia de que a autopublicação é um caminho mais fácil para determinados gêneros, mas um campo minado para quem busca excelência literária e reconhecimento crítico.

A publicação tradicional: o guardião da qualidade literária?

As editoras tradicionais, com seus processos seletivos e equipes especializadas, historicamente desempenham um papel crucial na curadoria do que chega ao público. A decisão de publicar um autor envolve não apenas o potencial comercial, mas também um julgamento editorial sobre a qualidade literária e a relevância artística da obra.

O editor, nesse contexto, vai muito além de um mero revisor. Ele é um parceiro criativo, um conselheiro que auxilia o autor a aprimorar seu texto, a refinar sua voz e a encontrar o melhor caminho para sua história. Essa relação colaborativa, muitas vezes subestimada, é fundamental para a lapidação de obras que se destacam pela sua profundidade e originalidade.

Para autores de ficção literária, o selo de uma editora respeitada pode significar um atalho para a credibilidade e o acesso a um público mais crítico e engajado. A dificuldade em conseguir um contrato editorial, embora frustrante, pode ser interpretada como um reflexo da exigência do mercado e da busca por obras que verdadeiramente acrescentem valor ao panorama literário.

O que define um escritor? a essência além do contrato editorial

Voltando à pergunta central: escritores deveriam parar de publicar? A resposta, como tantas vezes acontece na arte, não é um simples sim ou não. É um convite à reflexão sobre o que realmente define um escritor. Se a vocação literária se resume à capacidade de tecer palavras, de criar mundos e de expressar verdades, então a publicação se torna uma faceta desse universo, mas não o seu centro gravitacional.

O ato de escrever é, em si, um ato de ser escritor. A publicação é uma escolha, um meio de compartilhar essa verdade interior com o mundo. Para alguns, esse caminho passa pelas editoras tradicionais, com sua curadoria e alcance. Para outros, a autopublicação oferece o controle total sobre o processo criativo e de divulgação. E, para muitos, a jornada literária pode coexistir com ambas as modalidades, ou mesmo priorizar a escrita pela escrita, sem a ânsia por um contrato.

Em última análise, a decisão de publicar ou não publicar, e como fazê-lo, é profundamente pessoal. O que importa é a paixão pela palavra, a dedicação à arte de contar histórias e a coragem de, como disse Bruno Leandro, “escrever, escritores, escrever”. A publicação pode ser um destino para alguns, mas para todos que sentem a necessidade intrínseca de criar com palavras, a condição de escritor já é uma realidade.

Portanto, a questão não é se os escritores devem parar de publicar, mas sim reconhecer que a verdadeira essência da escrita transcende o ato formal da publicação, residindo na persistência, na paixão e no próprio ato de criar.

Tags :
aulas de escrita,auto publicação,autopublicação,autor,carreira literária,literatura,mercado editorial

Gostou do contéudo? Compartilhe!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Recentes