A leitura virou produto?

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A leitura virou produto?

leitura virou produto

Em um mundo cada vez mais digital e acelerado, a maneira como consumimos cultura e informação tem passado por transformações profundas. O livro, antes visto como um objeto de estudo ou lazer solitário, parece ter ganhado novas roupagens e propósitos. Será que a leitura, em si, se tornou apenas mais um item em um catálogo de bens de consumo, moldado pelas exigências do mercado e pelas vitórias do apelo visual nas redes sociais? A resposta curta é que a percepção da leitura e do livro mudou significativamente, misturando o valor intrínseco da literatura com a lógica do mercado e a cultura da imagem.

Essa nova dinâmica levanta questionamentos importantes: estamos lendo mais ou apenas consumindo a imagem da leitura? O que antes era um ato de imersão e reflexão, agora parece ser também uma performance, uma declaração de estilo de vida. A ascensão das redes sociais, com seus feeds repletos de influenciadores exibindo pilhas de livros, criou um cenário onde o livro pode ser tanto um portal para novas ideias quanto um acessório de moda. Essa dualidade entre o conteúdo e a estética é um dos pontos centrais na discussão sobre se a leitura, de fato, virou um produto em um sentido mais amplo.

O livro como artigo de consumo e a ascensão das megastores

A indústria livreira no Brasil tem passado por um período de consolidação e redefinição, especialmente após as dificuldades enfrentadas por grandes redes como a Cultura e a Saraiva. Nesse contexto, a Livraria Leitura emergiu como a maior do país, com 116 lojas físicas espalhadas por 23 estados e o Distrito Federal. Marcus Teles, CEO da Leitura, atribui o sucesso de sua rede não a uma crise no mercado de livros, mas a erros de gestão de seus concorrentes. Ele argumenta que tentar “vender a preços de Amazon” foi um equívoco estratégico.

A estratégia da Leitura, segundo Teles, passa por um modelo de gestão descentralizado. A família Teles, que ainda controla o grupo, permite que mais de 50 sócios tenham autonomia para gerir suas unidades regionais. Essa independência se traduz em uma adaptação da Leitura a cada localidade, resultando em lojas com “uma cara diferente” em cada canto do país. O CEO acredita em um retorno das megastores, especialmente em São Paulo, onde houve um fechamento de unidades de grandes redes. A Leitura, que possui lojas com média de 500 metros quadrados, também tem unidades acima de 1 mil metros, mostrando que o modelo de grande espaço ainda pode ser viável.

Apesar do crescimento online da Leitura, que aumentou mais de 50% nos últimos dois anos, Teles defende a força da loja física. Ele aponta que a venda de livros em livrarias físicas e virtuais é mal medida pelas pesquisas de mercado, com exceção da Nielsen, que cobre uma pequena amostra. A Amazon e outras livrarias virtuais, segundo ele, usam o livro como estratégia de crescimento, vendendo por vezes abaixo do custo, o que enfraqueceu empresas como Cultura e Saraiva. A Leitura, por outro lado, busca a concorrência saudável tanto no físico quanto no virtual, sem abrir mão de sua rentabilidade.

A disputa pela atenção: livro físico vs. digital e o papel das redes sociais

Uma das discussões mais acirradas no universo literário é sobre o futuro do livro digital em comparação com o físico. Marcus Teles, da Livraria Leitura, contesta a ideia de que o e-book dominará o mercado em breve. Ele lembra que, em 2012, previsões apontavam que o livro digital superaria o físico até 2018, o que não se concretizou. Em 2021, o mercado digital representava apenas 6% do total no Brasil, uma média inferior à mundial, que gira em torno de 10%. Para Teles, o livro digital não é uma ameaça real à venda de livros impressos.

Ele ressalta que a venda em livrarias físicas e virtuais é complexa e mal mensurada. A Amazon, por exemplo, utiliza o livro como item de atração, muitas vezes com preços abaixo do custo, o que desequilibra o mercado. A estratégia de oferecer frete grátis, que pode custar mais de R$ 12, em livros vendidos com margem mínima, é insustentável a longo prazo para a maioria das empresas. Essa prática, segundo Teles, contribuiu para o declínio de grandes redes como Cultura e Saraiva.

Paralelamente à discussão sobre formatos, as redes sociais introduziram uma nova camada de consumo cultural: a performance. A revista Gama, em seu artigo “Leitura ou performance? O livro como moda nas redes”, aponta como o uso da imagem dos livros por influenciadores acende um debate sobre a leitura como uma forma de ostentação ou estilo de vida. O que antes era um ato privado, de imersão e conhecimento, agora pode ser exibido publicamente, transformando o livro em um acessório que comunica status, intelectualidade ou simplesmente pertencimento a uma comunidade online.

Livro como moda: a estética da leitura nas redes sociais

A popularidade do “bookstagram” e do “booktok” trouxe o universo dos livros para o centro das atenções, mas nem sempre com o foco na profundidade da leitura. A imagem de uma estante organizada, a foto de um livro com uma xícara de café ou a participação em desafios de leitura nas redes sociais criaram uma estética própria para o ato de ler. Essa visibilidade, embora possa incentivar o interesse pela leitura, também levanta a questão sobre a autenticidade do engajamento com a literatura.

 

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bookstagram,booktok,consumo cultural,indústria editorial,livraria leitura,mercado de livros,redes sociais

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