A escritora Maria Fernanda Maglio, autora de obras premiadas como ‘Enfim, imperatriz’ e ‘179. Resistência’, mergulha nas complexidades da criação literária em seu mais recente romance, ‘Lá é o tempo’. O livro, que articula múltiplas linhas temporais e vozes narrativas, explora a sensação de urgência e desmoronamento iminente.
A polifonia, característica marcante da obra, é construída através de narrativas em primeira, terceira e até segunda pessoa, além de diferentes tempos verbais. Essa multiplicidade de perspectivas busca gerar no leitor uma experiência de atordoamento e sobreposição, onde passado, presente e futuro coexistem.
Maglio descreve o processo de escrita de ‘Lá é o tempo’ como um desaguamento para o fantástico, possivelmente pela abordagem metafísica do tempo. “Acho essa ideia tão bonita, mas tão difícil de compreender que, quando tentei alcançá-la, brotaram os elementos mágicos: o gato, a velha, o chá, as palavras indecifráveis, a pequena mata.”, revela a autora.
Um dos pilares da narrativa é a figura do personagem “escritor”, que, ironicamente, não consegue escrever. Essa contradição é vista pela autora como uma representação do próprio fazer literário. “Escrever para morrer, morrer para escrever”, pontua Maglio, ao discorrer sobre a dimensão máxima que o personagem leva essa ideia, tendo a morte como gatilho da escrita.
André, personagem central, é retratado com uma ambiguidade entre fragilidade e potencial violência. Maglio explica que sua forma de construir personagens é mais de descoberta do que de criação. “Sinto que André já estava lá. A mim, coube a paciência de ir deixando que ele se revelasse através do texto, revelasse nuances e ambiguidades, toda a carnadura que faz dele humano.”, afirma.
Atualmente, Maria Fernanda Maglio dedica-se a um novo projeto, uma distopia ambientada em um futuro pós-apocalíptico onde o aquecimento global levou ao desaparecimento dos pássaros e a humanidade se encontra à beira do colapso.



