O dilema da concentração na era digital
Você já se pegou folheando um livro, apenas para perceber que sua mente divagou para notificações de celular ou para a lista interminável de tarefas do dia? Se a resposta for sim, você não está sozinho. A aparente dificuldade em mergulhar em uma leitura longa e profunda é um sintoma cada vez mais comum na sociedade contemporânea, e o livro, em sua forma tradicional, parece ser um dos alvos dessa “crise da atenção”. Mas será que a culpa é da falta de concentração, ou algo mais está em jogo?
A verdade é que a dinâmica da atenção humana tem sido profundamente moldada pelas tecnologias digitais. A constante enxurrada de informações rápidas, notificações e conteúdos curtos criou um ambiente onde a nossa capacidade de concentração é, de fato, testada. Um estudo conduzido pelo Instituto de Psicologia da Uerj, que colheu dados com 1.460 pessoas, sugeriu um aumento significativo em sintomas de ansiedade e depressão apenas entre março e abril de 2020. Conforme relatado por profissionais de saúde mental, essa condição afeta diretamente a capacidade de se engajar em atividades que exigem foco prolongado, como a leitura de um livro. A psiquiatra Fernanda Gueiros explica que a falta de concentração é um sintoma clássico da ansiedade, exacerbada pela insegurança gerada pelo número de mortos, colapso econômico e crises políticas. “Vivemos um estado de vigília que tende a nos tirar o foco de tudo o que não está ligado ao risco que corremos”, afirma Gueiros, destacando que esse estado de alerta, herdado de nossos ancestrais, não encontra mais paralelos seguros em um ambiente de confinamento.
O impacto da pandemia no mercado editorial
O ano de 2020, marcado pela pandemia global de Covid-19, apresentou um cenário paradoxal para o mercado editorial. Por um lado, o fechamento de livrarias físicas em março de 2020 parecia prenunciar uma calamidade. A Folha de Pernambuco reportou que o fechamento das lojas reduziu as vendas pela metade. Gigantes do setor enfrentaram o encerramento definitivo de filiais e ameaças de falência. No entanto, o que se observou foi uma notável resistência e adaptação do setor.
A receita do mercado editorial começou a crescer gradualmente nos meses seguintes, e o ano terminou em patamares surpreendentemente positivos. Segundo a Nielsen Bookscan, as vendas de novembro de 2020 superaram em 20,8% as do mesmo período do ano anterior. A grande virada ocorreu no ambiente virtual: a maior parte dos lucros passou a vir de plataformas online, invertendo a equação que antes favorecia as lojas físicas. E-books e audiolivros também registraram um aumento expressivo em sua pujança.
A ascensão do digital e a concorrência acirrada
A concorrência de grandes players como a Amazon, com preços agressivos e acesso facilitado pela quarentena, representou um desafio para as livrarias independentes. Algumas não resistiram e fecharam suas portas, enquanto outras buscaram alternativas de sobrevivência, como o projeto Retomada, que arrecadava fundos por meio de vaquinhas virtuais. Contudo, até mesmo as livrarias físicas mostraram sinais de recuperação. Novas lojas surgiram em São Paulo, e redes consolidadas, como a Vila e Leitura, aproveitaram as oportunidades para expandir. A frequência nas lojas físicas ainda não atingiu o nível pré-pandemia, mas elas permanecem como vitrines indispensáveis para o lançamento de novidades.
O reflexo social e cultural na literatura
Além das questões econômicas e de adaptação digital, o mercado editorial em 2020 foi profundamente impactado por um evento sociocultural de grande magnitude: o movimento Black Lives Matter. As reverberações dessa pauta antirracista foram sentidas em lançamentos de obras importantes de não ficção, que abordaram a negritude, a branquitude e a estrutura do racismo, assim como em diversas obras de ficção imersas nesse tema. Livros de autores como Bernardine Evaristo, Ta-Nehisi Coates, Jeferson Tenório, Eliana Alves Cruz, Danez Smith e Jamaica Kincaid ganharam destaque.
Houve também um merecido resgate da obra de intelectuais negros, ampliando o acesso a seus livros ou reunindo seus escritos de forma extensiva pela primeira vez. No Brasil, Lélia Gonzalez e Luiz Gama receberam coletâneas essenciais. Internacionalmente, Audre Lorde, Ralph Ellison, Frantz Fanon e Wole Soyinka foram lembrados. Essa movimentação foi um esforço de diversas editoras atentas à demanda do público e ao “espírito do tempo”.
Prêmios e o reconhecimento da poesia
O prestigiado prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, refletiu esse movimento ao premiar “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior – obra que aborda a ancestralidade negra –, como melhor romance. Na categoria de humanas, o “Pequeno Manual Antirracista” de Djamila Ribeiro também foi celebrado. Contudo, o troféu de livro do ano foi para a poeta Cida Pedrosa, por seu “Solo para Vialejo”. A poesia também marcou presença no cenário internacional, com o Nobel de Literatura concedido à americana Louise Glück, autora cujas obras começariam a ser publicadas no Brasil a partir do ano seguinte.
Ameaças tributárias e a resiliência do setor
Em julho de 2020, o mercado editorial enfrentou outra ameaça: a possibilidade de os livros voltarem a ser taxados. A proposta de reforma tributária enviada ao Congresso pelo Ministério da Economia não previa isenção para o setor, que até então se beneficiava da ausência de PIS e Cofins sobre seus produtos. Escritores, leitores e profissionais do mercado se mobilizaram contra a medida, que poderia prejudicar editoras menores e encarecer o preço dos livros. Embora a proposta não tenha avançado naquele momento, devido à paralisação da reforma tributária no Congresso, a expectativa era de que o debate retornasse no ano seguinte.
Apesar dos diversos desafios – a pandemia, a crise de atenção, a concorrência digital e as ameaças tributárias –, a indústria editorial demonstrou uma força incomum. O ano de 2020, que começou com a perspectiva de uma catástrofe, revelou um produto cultural de notável resistência.
Desafios contemporâneos: além da pandemia
Retornando à questão inicial: a crise da atenção está realmente matando os livros? A resposta curta é: não exatamente. O que observamos é uma transformação na forma como interagimos com a leitura e com a informação. A pandemia, com seu impacto psicológico e social, evidenciou e talvez até exacerbou as dificuldades de concentração. Como relatado em O Globo, o desgaste emocional causado pela duração da tragédia e pelas crises políticas leva a um estado de vigília constante, dificultando o foco. Tarefas simples como ler tornam-se um exercício complicado.
Profissionais de saúde mental recomendam práticas de autorregulação e autoconhecimento para lidar com o estresse e a ansiedade, como exercícios aeróbicos, meditação e ioga. A utilização de aplicativos como Calm, Head Space, Insight Timer e Cingulo também se mostrou uma ferramenta valiosa para treinar a mente e melhorar a capacidade de concentração. Essas práticas não apenas auxiliam no controle da tensão, mas também preparam o indivíduo para enfrentar o estresse pós-traumático e outros transtornos que podem surgir após períodos de grande adversidade.
O futuro da leitura: adaptação e coexistência
A leitura em si não está morrendo; ela está se adaptando. A pujança dos e-books e audiolivros é uma prova disso. Essas mídias oferecem flexibilidade e acessibilidade, permitindo que as pessoas consumam conteúdo literário em formatos diversos e em momentos que antes seriam improdutivos. Um audiolivro pode ser ouvido durante o trajeto para o trabalho, e um e-book pode ser lido em pequenas pausas ao longo do dia.
O desafio para o futuro não é resgatar um passado idealizado, mas sim encontrar um equilíbrio. Como podemos cultivar a capacidade de concentração em um mundo saturado de estímulos? Como integrar a leitura em suas diversas formas – física, digital, sonora – em nossas vidas agitadas, mas sem sacrificar a profundidade da experiência literária? Acredita-se que a chave esteja em práticas conscientes. Estabelecer momentos dedicados à leitura sem interrupções, criar ambientes propícios para o foco e, principalmente, reconhecer a importância do livro como um portal para o conhecimento, a reflexão e o entretenimento profundo, mesmo em meio à cacofonia digital.
A indústria editorial, com sua notável resiliência, já demonstrou capacidade de inovação e adaptação. O que precisamos, como leitores, é redescobrir o valor da atenção plena e da imersão, não como um luxo, mas como uma necessidade para o nosso bem-estar mental e para a compreensão do mundo complexo em que vivemos. A crise da atenção pode ser um obstáculo, mas também pode ser o catalisador para uma nova relação, mais madura e consciente, com a palavra escrita e com a própria mente.

